sexta-feira, 21 de maio de 2010

Encontro do Santo Padre com as organizações pastorais, entre elas as de cariz missionário

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Igreja da SS.ma Trindade - Fátima

Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Queridos irmãos e amigos,

Ouvistes Jesus dizer: «Vai e faz o mesmo» (Lc 10, 37). Recomenda-nos que façamos

nosso o estilo do bom samaritano, cujo exemplo acaba de ser proclamado, ao

aproximar-nos das situações carentes de ajuda fraterna. E qual é esse estilo? «É “um

coração que vê”. Este coração vê onde há necessidade de amor e actua em

consequência» (Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 31). Assim fez o bom samaritano.

Jesus não se limita a recomendar; como ensinam os Santos Padres, o Bom Samaritano é

Ele, que Se faz próximo de todos os homens e «derrama sobre as suas feridas o óleo da

consolação e o vinho da esperança» (Missal Romano, Prefácio Comum VIII) e os

conduz à estalagem, que é a Igreja, onde os faz tratar, confiando-os aos seus ministros e

pagando pessoalmente de antemão pela cura. «Vai e faz o mesmo»! O amor

incondicionado de Jesus que nos curou há-de converter-se em amor entregue gratuita e

generosamente, através da justiça e da caridade, para vivermos com um coração de bom

samaritano.

É com grande alegria que me encontro convosco neste lugar bendito que Deus escolheu

para recordar à humanidade, através de Nossa Senhora, os seus desígnios de amor

misericordioso. Saúdo com grande amizade cada pessoa aqui presente e as entidades a

que pertencem, na diversidade de rostos unidos na reflexão das questões sociais e

sobretudo na prática da compaixão, voltada para os pobres, os doentes, os presos, os sós

e desamparados, as pessoas com deficiência, as crianças e os idosos, os migrantes, os

desempregados e os sujeitos a carências que lhes perturbam a dignidade de pessoas

livres. Obrigado, Dom Carlos Azevedo, pelo preito de união e fidelidade à Igreja e ao

Papa que prestou tanto da parte desta assembleia da caridade como da Comissão

Episcopal de Pastoral Social a que preside e que não cessa de estimular esta imensa

sementeira de bem-fazer em Portugal inteiro. Cientes, como Igreja, de não poderdes dar

soluções práticas a todos os problemas concretos, mas despojados de qualquer tipo de

poder, determinados ao serviço do bem comum, estais prontos a ajudar e a oferecer os

meios de salvação a todos.

Queridos irmãos e irmãs que operais no vasto mundo da caridade, «Cristo ensina-nos

que “Deus é amor” (1 Jo 4, 8) e simultaneamente ensina-nos que a lei fundamental da

perfeição humana e, consequentemente, também da transformação do mundo é o novo

mandamento do amor. Portanto aqueles que crêem na caridade divina têm a certeza

d’Ele que a estrada da caridade está aberta a todos os homens» (Conc. Ecum. Vaticano

II, Const. Gaudium et spes, 38). O cenário actual da história é de crise sócio-económica,

cultural e espiritual, pondo em evidência a oportunidade de um discernimento orientado

pela proposta criativa da mensagem social da Igreja. O estudo da sua doutrina social,

que assume como principal força e princípio a caridade, permitirá marcar um processo

de desenvolvimento humano integral que adquira profundidade de coração e alcance

maior humanização da sociedade (cf. Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 20). Não se

trata de puro conhecimento intelectual, mas de uma sabedoria que dê sabor e tempero,

ofereça criatividade às vias cognoscitivas e operativas para enfrentar tão ampla e

complexa crise. Que as instituições da Igreja, unidas a todas as organizações não

eclesiais, melhorem as suas capacidades de conhecimento e orientações para uma nova

e grandiosa dinâmica que conduza para «aquela civilização do amor, cuja semente Deus

colocou em todo o povo e cultura» (Ibid., 33).

Na sua dimensão social e política, esta diaconia da caridade é própria dos leigos,

chamados a promover organicamente o bem comum, a justiça e a configurar rectamente

a vida social (cf. Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 29). Consta das vossas conclusões

pastorais, resultantes de reflexões recentes, formar uma nova geração de líderes

servidores. A atracção de novos agentes leigos para este campo pastoral merecerá

certamente especial cuidado dos pastores, atentos ao futuro. Quem aprende de Deus

Amor será inevitavelmente pessoa para os outros. Realmente, «o amor de Deus revela-

se na responsabilidade pelo outro» (Bento XVI, Enc. Spe salvi, 28). Unidos a Cristo na

sua consagração ao Pai, somos tomados pela sua compaixão pelas multidões que pedem

justiça e solidariedade e, como o bom samaritano da parábola, esforçamo-nos por dar

respostas concretas e generosas.

Muitas vezes, porém, não é fácil conseguir uma síntese satisfatória da vida espiritual

com a acção apostólica. A pressão exercida pela cultura dominante, que apresenta com

insistência um estilo de vida fundado sobre a lei do mais forte, sobre o lucro fácil e

fascinante, acaba por influir sobre o nosso modo de pensar, os nossos projectos e as

perspectivas do nosso serviço, com o risco de esvaziá-los da motivação da fé e da

esperança cristã que os tinha suscitado. Os pedidos numerosos e prementes de ajuda e

amparo que nos dirigem os pobres e marginalizados da sociedade impelem-nos a buscar

soluções que estejam na lógica da eficácia, do efeito visível e da publicidade. E todavia

a referida síntese é absolutamente necessária para poderdes, amados irmãos, servir

Cristo na humanidade que vos espera. Neste mundo dividido, impõe-se a todos uma

profunda e autêntica unidade de coração, de espírito e de acção.

No meio de tantas instituições sociais que servem o bem comum, próximas de

populações carenciadas, contam-se as da Igreja Católica. Importa que seja clara a sua

orientação de modo a assumirem uma identidade bem patente: na inspiração dos seus

objectivos, na escolha dos seus recursos humanos, nos métodos de actuação, na

qualidade dos seus serviços, na gestão séria e eficaz dos meios. A firmeza da identidade

das instituições é um serviço real, com grandes vantagens para os que dele beneficiam.

Passo fundamental, além da identidade e unido a ela, é conceder à actividade caritativa

cristã autonomia e independência da política e das ideologias (cf. Bento XVI, Enc. Deus

caritas est, 31 b), ainda que em cooperação com organismos do Estado para atingir fins

comuns.

As vossas actividades assistenciais, educativas ou caritativas sejam completadas com

projectos de liberdade que promovam o ser humano, na busca da fraternidade universal.

Aqui se situa o urgente empenhamento dos cristãos na defesa dos direitos humanos,

preocupados com a totalidade da pessoa humana nas suas diversas dimensões. Exprimo

profundo apreço a todas aquelas iniciativas sociais e pastorais que procuram lutar contra

os mecanismos sócio-económicos e culturais que levam ao aborto e que têm em vista a

defesa da vida e a reconciliação e cura das pessoas feridas pelo drama do aborto. As

iniciativas que visam tutelar os valores essenciais e primários da vida, desde a sua

concepção, e da família, fundada sobre o matrimónio indissolúvel de um homem com

uma mulher, ajudam a responder a alguns dos mais insidiosos e perigosos desafios que

hoje se colocam ao bem comum. Tais iniciativas constituem, juntamente com muitas

outras formas de compromisso, elementos essenciais para a construção da civilização do

amor.

Tudo isto bem se enquadra na mensagem de Nossa Senhora que ressoa neste lugar: a

penitência, a oração, o perdão que visa a conversão dos corações. Esta é a estrada para

se construir a referida civilização do amor, cujas sementes Deus lançou no coração de

todo o homem e que a fé em Cristo Salvador faz germinar. Obrigado!

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